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ANJEF |
Associação Nacional de Jornalistas e Escritores Filatélicos |
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REPUBLICANISMO POSTAL |
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Armando Vieira |
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(artigo publicado no nº 1 da "Convenção Filatélica" - Dezembro de 2001) |
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As
raízes mais profundas do nosso republicanismo estendem-se até
aos finais do séc. XVIII para irem mergulhar na Revolução Francesa.
Por essa razão, a própria insurreição vitoriosa de 5 de Outubro de
1910, que aboliu o regime monárquico e introduziu a República em
Portugal, esteve para ocorrer uns meses mais cedo, pelo facto de Machado
dos Santos, presidente da Carbonária, pretender que o movimento
eclodisse em 14 de Julho daquele ano, data comemorativa da emblemática
Tomada da Bastilha em Paris, tese que acabou por não prevalecer, como
é sabido. Não
só a Carbonária, como a própria Maçonaria, contribuíram de forma
determinante para a propagação das ideologias francesas entre a nossa
pequena e média burguesia. Os ventos anticlericais e anti-monárquicos
divulgaram-se por cá, acompanhados pelos ideais da triologia da
“liberdade, igualdade e fraternidade”. O
nosso republicanismo foi no entanto mais um espalhar das noções de
democracia e de direitos de cidadania do que, propriamente, a construção
sistematizada de uma ideologia. E o povo, sobretudo o citadino,
correspondeu ao apelo dos políticos, mas apenas na medida em que a sua
pouca educação e ainda menor grau de instrução o permitiam. Não
tinha clara consciência nem do que se passava, nem muito menos do que a
República lhe poderia vir a oferecer no futuro. Implantado
o novo regime, enquanto os seus responsáveis procuravam com maior ou
menor convicção, bom senso e sucesso, reformar as tradicionais
instituições e mudar ancestrais costumes, muito exagero e oportunismo
se espalhou por todo o lado e a todos os níveis sociais. Ramalho
Ortigão caricaturou de forma magistral o histerismo vivido então por
todo o país, citando numa das suas "Últimas Farpas", o caso
de um estalajadeiro de Viseu que, não se contentando em mudar o nome da
sua hospedaria para “Hotel Democrático”, se envergonhou do seu nome
de família - Reis - e passou a chamar a si próprio “Liberato”! De
entre os muitos desatinos cometidos enquanto durou a euforia da mudança,
é interessante recordar alguns actos praticados por certos republicanos
mais fanáticos que deixaram marcas em objectos da nossa História
Postal. Efectivamente,
utentes houve dos serviços dos Correios que não se fizeram esperar
para darem largas aos seus sentimentos republicanos ou, se quisermos,
anti-monárquicos. Assim, estando em circulação desde o início
daquele ano de 1910, estampilhas e bilhetes-postais com o busto do
jovem D. Manuel II, houve quem não
deixasse as coisas para o dia seguinte e, no próprio 5 de Outubro,
fosse ao Correio da sua terra para carimbar alguns selos com aquela
importante data. Tal aconteceu em Cinfães, como se pode ver no conjunto
de três selos representados na figura 1. Do
mesmo dia é o carimbo obliterante de um selo de 25 réis daquela emissão
- figura 2. Não é possível ler-se o topónimo da marca, mas é
bem visível a sanha revolucionária do indivíduo que, a vermelho, traçou
parcialmente o escudo português, pintou os cabelos do rei e, ainda na
mesma cor, lhe escreveu as iniciais “R P”, uma de cada lado da cabeça. Do
mês seguinte, ficou-nos um outro selo da mesma taxa, - figura 3 -
colado ainda sobre fragmento de papel, e obliterado na Estação dos
Correios de Vila Nova de Gaia. Com o indispensável vermelho, houve quem
encobrisse as armas nacionais e cruzasse com dois traços o busto real. Muitas
e variadas manifestações de republicanismo se sucederam ao longo dos
anos por todo o país. Merecem, entre todas, destaque os “Barretes Frígios”
símbolos da libertação dos escravos e, desde a Revolução
Francesa, da própria República. |
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Houve
por cá quem o mandasse abrir em carimbos de firma comerciais, ou em seu
nome pessoal. É o caso ilustrado na figura 4, de um logista do Sabugal
que dessa maneira marcou o remetente de um bilhete postal de negócios,
enviado para o Porto, em Fevereiro de 1912. Limitou-se apenas a
este assomo mas respeitou a imagem e a coroa reais, deixando-as intactas
sem qualquer obliteração.
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Já
não tanto se contiveram os autores, ou autor das peças que podemos observar nas figuras 5
e 6. Se foi apenas um o pai da ideia, deveria ter sido pessoa dos lados
de Nazaré, conforme o faz suspeitar a marca do dia da figura 6. Teve o
cuidado de arranjar um carimbo com um pequeno Barrete Frígio muito bem
recortado, mas não bastante pequeno para servir convenientemente na
cabeça de D. Manuel. Ou então foi propositadamente que o escolheu
naquelas dimensões para lho poder enfiar até ao pescoço... Na
figura 7 temos um selo de 10 réis com um "desenho", a tinta
preta, feito por "artista" pouco
inspirado, mas que talvez quisesse também representar um Barrete
Frígio. Do que não deixou dúvidas foi o de pretender tapar os olhos e
fechar a boca do pobre rei. |
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Outras manifestações se foram sucedendo até saírem as fórmulas de franquia devidamente sobrecarregadas com “REPUBLICA”. Estas, insistentemente reclamadas pelo povo, começaram logo a circular no dia 12 de Outubro de 1910. As primeiras a aparecer foram os bilhetes postais de 10 réis, com sobrecargas batidas mesmo à mão, pois o tempo não deu para mais. Os restantes valores, assim como toda a série de estampilhas, já então sobrecarregadas mecanicamente, demoraram mais uns escassos dias, sendo postas à venda pública a 1 de Novembro seguinte. |