ANJEF

Associação Nacional de Jornalistas e Escritores Filatélicos

HISTÓRIA POSTAL DE ANGOLA (12)

Elder Correia

(artigo publicado  no nº 2 da "Convenção Filatélica" - Março de 2002)

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2 – Uma solução de recurso 

Pressionados ou não pelo impacto que teria a nível da Conferência Económica do Império as reclamações a apresentar pela delegação angolana, certo é que os Serviços Postais da Província procuraram encontrar uma solução imediata ainda que precária para o problema do serviço postal aéreo entre Angola e Portugal. Assim, por ofício datado de 18 de Abril de 1936, a Repartição Central dos Correios e Telégrafos de Angola, dá conhecimento ao presidente da Delegação de Angola à dita Conferência, das providências que estavam a ser tomadas para a implementação de um serviço de correio aéreo. Pela sua importância transcreve-se o teor do dito ofício:

         “Excelentíssimo Senhor

1º - Acerca da organização das comunicações aéreas, de que trata o ofício nº 115/30 de Janeiro último, tenho a honra de comunicara V. Exª. que, depois de terem sido encetadas, com a concordância de Sua Excelência o Governador Geral, as negociações para a vinda a Luanda, de 15 em 15 dias, dum avião da SABENA, o Conselho Nacional do Ar não deu voto favorável a tal realização, pelo que foram suspensas as negociações nesse sentido.

2º - Resolveu-se então entrar num acordo, embora como simples experiência, com a SABENA, para dar trânsito às correspondências desta Colónia, que serão enviadas a Leopoldville por uma carrinha, subsidiada por estes Serviços, que fará duas viagens por mês.

3º - O itinerário da carrinha, é de três dias de Luanda a Leopoldville, e outros tantos para o regresso. Um avião levaria apenas 3 horas. Nestas condições, muito conviria o estabelecimento da aviação nesta Colónia, para fazer tais serviços, semanalmente, embora com um subsídio destes Serviços.

4º - Sendo V. Exª. o Presidente da Delegação da 1ª. Conferência Económica do Império Colonial Português, a realizar em Lisboa, aproveito para solicitar a V. Exª. a sua interferência junto do Governo Central, no sentido de ser satisfeita tão justa como necessária pretensão.

5º - Enquanto não for possível a realização de tão importante melhoramento, procurarão estes Serviços manter o serviço da carrinha para o transporte do correio de Luanda para Leopoldville, em combinação com as carreiras Sabena, ficando as correspondências por aquela via, com um itinerário de 9 dias de Luanda a Lisboa, que seria reduzido a 6, com os serviços de aviação nesta Colónia.”

 

É evidente que a solução proposta pela Repartição Central dos CTT de Angola era a mais primária possível, sem condições de se manter pelo tempo necessário até à criação de uma aviação civil em Angola. Para os optimistas angolanos era melhor do que nada, e só o facto de puderem vir a usufruir de um serviço mais rápido alguns dias em relação ao que lhes era oferecido foi motivo de regozijo e manifestações de apreço.

Mas, mesmo assim, tardaria a chegar o tão ansiado serviço postal “Por avião”. As negociações com as empresas transportadoras foram morosas, e após vários avanços e recuos conseguiu-se finalmente negociar um contrato de transporte quinzenal de malas de correio entre Luanda e Leopoldville com a Sociedade Angolana Para o Intercâmbio Comercial, mais conhecida como SAPIC.

A 23 de Junho (terça-feira) na sua edição vespertina o jornal “ÚLTIMA HORA” dá a conhecer à população de Luanda a tão esperada boa nova, que se trancreve:  

“No dia 25 deste mês, quinta-feira, iniciar-se-á o serviço postal entre Luanda e a Europa pela via aérea saindo desta cidade uma camioneta com as malas de correio que se destinam a Leopoldville. O avião da Sabena que transporta a correspondência para a Europa sairá daquela cidade no próximo Domingo (28 Junho).

A mala para este serviço fecha em Lisboa aos sábados chegando o correio a Leopoldville na 5ª feira e a Luanda, de camioneta, no Domingo seguinte.

As carreiras de camioneta para o transporte de correio entre Luanda e Congo Belga foram concedidas á Sociedade Angolana Para o Intercâmbio Comercial – SAPIC, mediante contrato.

Foram fixadas as seguintes taxas postais para a correspondência ordinária de 5 gramas.  

Cartas: Taxa postal 5 gramas 0,80; Porte Avião 4,20; Total 5,00

Bilhetes Postais: 0,50; Porte avião 4,20; Total 4,70

Registos: mais 0,40

O fecho da mala está marcado para a próxima 4ª feira (24 Junho) ás 17H00, saindo a camioneta na madrugada de quinta-feira.”   

Efectivamente a camioneta da Sapic saiu dia 25 de Junho de 1936 de Luanda para Leopoldville no Congo Belga, transportando a mala de correio com destino à Europa pela via aérea. No seu interior levou 218 cartas ordinárias e 22 registadas com o peso de 1.363 gramas, destinadas a Portugal e vários países da Europa e América. A tabela de portes noticiada não corresponde exactamente ao que veio a ser praticado. Noutro ponto deste artigo se focará com mais pormenor este tema.

Uma das cartas transportadas é a que apresentamos na Fig. 1, autêntica raridade da nossa filatelia. Remetida de Luanda sob registo em 24.06.936 para Lisboa onde chegou a 05.07.936 com trânsito por Leopoldville em 28.06.936 levou exactamente 11 dias a chegar e não nove como se previa.

Para a implementação deste serviço de correio aéreo, face à pouca experiência existente a nível dos serviços postais de Angola no que concerne aos processos administrativos, muito contribuíram os CTT de Moçambique, que a pedido facultaram e remeteram copias dos documentos necessários e relativos ao transporte de correspondência por avião, já há muito em uso naquela colónia. Esses documentos foram enviados para Angola em 12 de Dezembro de 1935.

Somente em 21 de Agosto de 1936, já com o correio aéreo em funcionamento, os CTT de Angola agradeceram a colaboração de Moçambique, por ofício que se transcreve.  

“Com a nota de V. Exª. nº. 5820/964/P, de 12 de Dezembro de 1935, teve V. Exª. a gentileza de satisfazer o pedido desta Repartição Central constante na nota nº 8919/2128/619/2ª/2ª, de 21 de Outubro do mesmo ano, enviando a esta Repartição cópias de vários documentos relativos ao serviço de transporte de correspondência por via aérea, que serviram de elementos de estudo para o estabelecimento do nosso serviço nesta Colónia.

Embora tarde não deixa de ser oportuno reconhecer a boa vontade e a prontidão com que foi satisfeito o pedido desta Repartição, fornecendo-nos valiosos elementos para estabelecimento dum novo serviço, que teve o seu início, embora a título de experiência no dia 24 de Junho último, executado em transporte automóvel quinzenalmente, de Luanda até Leopoldville, de onde a correspondência é transportada em avião para diferentes países do Globo.

Deixando aqui consignados os meus agradecimentos a V. Exª. e ao seu pessoal que teve interferência na elaboração de tais elementos, queira V. Exª. aceitar os protestos da minha alta consideração.”

Entretanto, por sua inteira responsabilidade, a empresa contratada para efectuar o transporte das malas postais começou a efectuar viagens extraordinárias, para além das quinzenais contratadas. Temeroso de que a Repartição Provincial fosse confrontada com o pagamento dessas viagens extraordinárias apressou-se o Chefe da 2ª Divisão dos CTT a oficiar aquele serviço da situação em 21 de Agosto de 1936:  

“O início das carreiras quinzenais Luanda-Leopoldville em transporte automóvel que vem sendo executado, a título de experiência pela Sociedade Angolana para Intercâmbio Comercial Limitada (SAPIC) teve lugar no dia 24 de Junho último e como outras viagens tem-se feito, extraordinariamente, pela mesma Sociedade, cabe-me informar V. Exª. que somente as quinzenais a partir daquela data são encargos da Repartição Central dos nossos Serviços conforme ficou acordado, entre a mesma Repartição e aquela Sociedade, não constituindo encargo para os nossos Serviços quaisquer viagens realizadas além do que ficou estabelecido, pelo que o comunico a V. Exª. para os efeitos de abono e fiscalização.

Mais comunico a V. Exª., que Sua Exª. o Sr. Governador Geral por seu despacho de 19 do corrente autorizou a continuação da carreira-automóvel a que se faz referência, até ao fim do ano em curso.”

Não sendo significativa a adesão da população de Angola ao novo serviço, e sendo também diminuta a quantidade de correspondência no sentido inverso, principalmente pela pouca publicidade dada pelos serviços postais do Continente, o interesse na manutenção deste serviço postal aéreo começou a ser questionada pelos serviços postais de Angola. Sendo o transporte desta mala postal subsidiado, entendiam os CTT de Angola que os custos de manutenção do serviço não tinha retorno face à diminuta receita arrecadada pela cobrança dos portes.

Assim em 23 de Novembro de 1936 o encarregado de expediente da 2ª Divisão dos CTT de Luanda oficiava o Chefe da Repartição Provincial dos CTT das deliberações entretanto tomadas quanto ao correio “POR AVIÃO”. Pela nota nº 10 054/2524/632/2ª/2ª informava que o correio “POR AVIÃO” podia continuar a ser expedido como até aí, logo que a “SAPIC” ratificasse a combinação verbal que fez com o Exmº. ex-chefe da Repartição Central Tenente Américo Soares Beirão, de transportar, gratuitamente, dessa data até ao fim do corrente ano as malas a expedir pela via acima indicada.

Depois desta comunicação, o serviço foi executado por mais duas vezes, terminando assim ingloriamente esta experiência, tendente à implantação do correio aéreo na colónia. O serviço postal aéreo voltaria com carácter definitivo, cerca de dois anos depois, impulsionado pelo Aero Clube de Angola.  

Fig. 3 – Carta remetida registada de Portugália (26.08.936) para Bruxelas, com trânsito por Tchikapa (27.08.936) e Luluabourg (28.08.936)  

Fig. 4 – Carta remetida registada de Portugália (30.09.936) para Bruxelas, com trânsito por Tchikapa (01.10.936) e Luluabourg (03.10.936)  

 

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