ANJEF

Associação Nacional de Jornalistas e Escritores Filatélicos

A IDENTIDADE CULTURAL ALENTEJANA

Hernâni Matos

(artigo publicado  no catálogo das Exposições Filatélicas ESTREMOZ 2001 e FILAMOZ 2001)

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A quem não me conhece, permitam-me que me apresente. Sou o Hernâni, natural de Estremoz, terra de barro, esse mesmo barro com que Deus terá moldado o primeiro homem.

Com os pés bem assentes na sólida e vasta planície de Além-Tejo (fig. 1), sinto-me em absoluto sincronismo espiritual com a paisagem que um Silva Porto, um D. Carlos de Bragança (fig. 2) ou um Dordio Gomes, tão bem souberam cromaticamente fixar na tela.

Fig. 1 – PLANÍCIES DO SUL. Selo da emissão “Europa - CEPT (1977)”. Marca de dia do tipo de 1944 de TRINDADE (BEJA), obliteração ordinária de 2-5-1977, 1º dia de circulação do selo. Postal edição APM (Lisboa).

Fig. 2 – D. CARLOS I. Selo da emissão “D. CARLOS I - tipo Mouchon (1895)”. Marca de dia do tipo quadrangular de LISBOA (4ª Secção), obliteração ordinária de 16-3-1906, dia da expedição para BRUXELLES com porte de impressos (10 réis). Postal edição privada, não identificada, nº LVI.

De igual modo, um Conde de Monsaraz, uma Florbela Espanca ou um Manuel da Fonseca, registaram poeticamente em vibrantes estrofes, a matriz da nossa natureza ancestral.

Também um Fialho de Almeida, um Manuel Ribeiro ou um Antunes da Silva magistralmente perpetuaram na prosa, o colorido policromático e multifacetado da nossa etnografia, a dureza da nossa labuta, a firmeza do nosso querer, o calor do nosso sentir, a razão das nossas revoltas ancestrais, os marcos das nossas lutas (fig. 3) e as mensagens implícitas nas nossas esperanças.

Telas, versos e prosa que são sinestesias que fazem vibrar os nossos cinco sentidos.

O azul límpido do céu, o castanho da terra de barro, a cor de fogo do Sol e o verde seco da copa dos sobreirais (fig. 4), constituem uma paleta de cores, trespassada por uma claridade que quase nos cega e é companheira inseparável do calor que nos esmaga o peito, queima as entranhas e encortiça a boca.

Sonoridades do restolho seco que quebramos debaixo dos pés, sonoridades das searas (fig. 3 e fig. 5) e dos montados (fig. 4), sonoridades dos rebanhos que ao entardecer regressam aos redis (fig. 6), mas sonoridades também na ausência de sons por não correr o mais leve sopro de aragem.  

Fig. 3 – CAMPONESES. Selo da emissão “1º de Maio – Dia do Trabalhador (1981)”. Marca comemorativa da Exposição BEJA 83, obliteração especial ilustrada de BEJA, do dia 5-10-1983. Postal edição CÓMER (Lisboa), nº 788.

Fig. 4 – MONTADO. Selo da emissão “Floresta - Ciclo dos Recursos Naturais (1977)”. Marca de dia do tipo de 1944 de  ARRAIOLOS, obliteração ordinária de 21-3-1977, 1º dia de circulação do selo. Postal edição da Junta Distrital de Évora e Comissão Municipal de Turismo.

Odores das flores de esteva, de poejo e de ourégãos, mas também do barro húmido, do azeite com que temperamos divinamente a comida e do vinho espesso e aveludado, que mastigamos nos nossos rituais gastronómicos.

Fig. 5 – CEIFEIRAS. Selo da emissão “Ano Internacional da Mulher (1975)”. Marca comemorativa da Exposição ÉVORA 82, obliteração especial ilustrada de Évora, do dia 9-5-1982. Postal edição da Junta Distrital de Évora e Comissão Municipal de Turismo.

Fig. 6 – PASTOR E REBANHO. Selo da emissão “Europa – CEPT. Artesanato (1976)”. Marca de dia do tipo de 1944 de  ARRAIOLOS, obliteração ordinária de 3-5-1976, 1º dia de circulação do selo. Postal edição da Junta Distrital de Évora e Comissão Municipal de Turismo.

São estas profundas marcas, gravadas atavicamente a fogo na alma alentejana, que fazem com que eu seja, não por opção, mas por nascimento, um homem do Sul e um alentejano dos barros de Estremoz.

Sinto o Alentejo com emoção e a dimensão regional das minhas emoções tem a ver com a identidade cultural do povo alentejano, forjada e caldeada em condições adversas. Vejamos em rápidas pinceladas, o que é isso da identidade cultural do povo alentejano.

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